sábado, 17 de janeiro de 2009

O balanço

Meus dedos estão calejados de tanto aprender à sofrer,meu corpo já não é mas o mesmo...sinto dores em lugares que nem sabia que existiam, minha respiração falha sem eu ao menos perceber,quando olho para o horizonte só enxergo embaçamento.E quando me vejo no espelho não me reconheço mais, na minha memória está guardada a imagem daquela jovem moça...menina que gosta de brincar no balanço, sentir o vento batendo no rosto , os cabelos se enroscando ,olhar o céu azul ,azul, azul sem nenhuma nuvem...o sol lá longe piscando para mim, a única coisa que se ouve é o ranger da corda com o vai e vem do balanço...só isso num silêncio sem fim, e por um segundo esqueci de tudo ,da boneca, de moer cana,de varrer a terra,de olhar,de piscar, de respirar...esqueci de pensar, só fiquei alí...balançando sem se preocupar com nada .Senti.Pela primeira vez senti.A vida como ela deveria ser vivida, como ela deveria ser sentida.
Balançando,balançando...poderia morrer ali ou o mundo acabar naquele segundo eu continuaria alí...choveu,choveu, Choveu e eu comecei a sorrir como nunca.Senti cada pingo de chuva beijando meu corpo.Eu senti.Mas não parava de balançar não podia parar, aquilo era tão bom.O refrescante ar foi passando.
Parou de chover
E eu ali toda molhada percebi que o mundo era mais mundo...que os galhos secos estavam escharcados por minha causa ,eu tinha feito chover ..eu sozinha...sozinha....sem ninguém olhando...sozinha
Derrepente volta aos meus ouvidos o ranger das cordas, e rangem cada vez mais alto,alto.Alto.Um grito trovador de meu pai desintegra o silêncio,a corda arrebenta ...e eu vôo,pairo no ar.Alto. Saio em busca da chuva,do ar gelado... e quando caio no chão.Tudo volta ao seu lugar.
Meus pensamentos não são mais meus, agora, são de meu pai.Me mandando levantar e ir para o moinho aos berros...eu alí parada em choque não sabia o que fazer! não sabia obedecer!!...deitei no chão e em um gesto de menina taquei terra em suas costas ,ele olhou para trás,eu ainda fora de mim comecei a rir, e ele olhando para mim sem reação vendo como eu dava risada...Começou a rir também...nunca tinha visto meu pai rir...numa mesma sintonia ...rimos, eu brincando com a terra e rolando no chão...meu pai sentou com a mão no ventre e começamos a brincar... os dois, rolávamos e pulavamos debaixo do sol que agora nos olhava firmemente com curiosidade...num instante a risada foi indo , indo ,foi.Paramos, meu pai se levantou espanou o ombro e entrou em casa sem dizer uma só palavra.
Depois de alguns minutos abri os olhos ...e me vi aqui.

2 comentários:

  1. Mais um texto de qualidade indiscutível. Você conseguiu arrancar-me uma torrente de sentimentos que até então eu desconhecia, desde uma nostalgia incontrolável da infância com seus múltiplos balanços até um enternecimento profundo com a relação entre pai e filha, tudo isso pontuado pela magnitude da última frase, carregada daquela genialidade de que só grandes escritores são capazes de dispor, como, certamente, é o seu caso. Agradeço-lhe por proporcionar a humildes leitores como eu mergulhar nessa incrível viagem. Beijos, até mais.

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  2. me lembrou muito do filme abril despedaçado, pelo simples ser tão grosso e seco.
    O MUNDO ERA MAIS MUNDO , MUITO BOM

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