Capitolina


Eu ainda era moça, quando ele me apareceu. Seu rosto nunca saiu da minha memória, lembro de todos os contornos. Sua boca lisa, mordidas fúteis. Seus olhos luz, seduz o que espera. Deve ser só isso, menti quando disse que lembrava de tudo.Oh! E suas mãos, como podia ter esquecido.
Ele se aproximava e se dispersava com a fumaça, que não gostava.Me provocava com sua mãos macias , grossas e amavéis. Existiam sim toques obscenos se notasse. Mas eu gostava.

Mergulhei nele, e ele...se deixou levar pelas minhas correntezas. Contornei , deslizei, perguntei e quase desacreditei.

Ele era só meu ,e eu sabia disso.Casamos. Nunca tive medo de perdê-lo. Tivemos um filho.Ele não seria capaz disso.

Eu sempre o amei, sempre, nunca me deixai levar por outro, a não ser por ele.Mas suas mãos.Ele era a minha juventude, eu o mastigava, deglutia e respirava. Suas mãos. Às vezes ele balançava nos meus amores e acreditava que eu não seria capaz, mas definitivamente suas mãos me induziam a loucura. Eu mergulhava, uma vez, duas, três, mil vezes se ele quisesse. Não tinha pudores, nunca tive e ele não tinha malicia.Mãos.

Sempre acreditei nele, pena que ele não. Dúvidas mal perguntadas, ilusões indefinidas, perguntas corretas engolidas. Eu nasci e vivi para amá-lo, e ele sempre amou a si mesmo.

Contava nossas íntimidades para seu amigo que nunca conheci profundamente, mas o admirava. Não achava isso certo, contar nossas histórias, aventuras para um homem que mal via. Mas depois de um tempo não me importava mais, já era da família. Porque ele o tratava como se fosse, às vezes penso que ele amava mais seu amigo do que a mim. Mas não conseguia fazer nada.
Ele me atava com suas mãos grosseiras...

Eu o amava mais que a mim mesma, mas ele se cansou dos meus olhos e eu de suas mãos.

Fui embora dele, mesmo assim o deixei molhado, por dentro e por fora, impregnado com meu sal .

Meu nome é Capitolina

Comentários

  1. palmas!!!!!!
    maravilhoso esse seu texto.
    Sim sim.Não vou negar que é um grande texto,
    De uma grande história suponho?

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  2. mari, o que você escreve é lindo demais. "Estopa" me emocionou.

    beijo *gabidoblog haha

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  3. Lendo esse post, convenci-me de que Capitu existe e está encarnada em você. É incrível como suas palavras ajustam-se perfeitamente ao perfil da personagem. Sem falar na sua fixação pelas mãos de Bentinho, que são de uma genialidade capaz de matar Machado de inveja. Enfim, não sei mais o que dizer. Espero ter expressado minha admiração por seu trabalho, que cresce cada dia mais! Até o próximo post.

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